Burundi: Pequeno no mapa, enorme na capacidade de resistir

Vista do Lago Tanganica cercado por colinas verdes no Burundi.

Há países que parecem ter sido desenhados para facilitar a vida aos geógrafos. O Burundi não é propriamente um deles. Pequeno, montanhoso e sem saída para o mar, encaixado entre o Ruanda, a Tanzânia e a República Democrática do Congo, ocupa uma área modesta na região dos Grandes Lagos Africanos, mas acumulou uma quantidade de História que daria para um país consideravelmente maior.

Reino antigo, território colonial, monarquia independente, república, palco de golpes, massacres e uma longa guerra civil, o Burundi atravessou o século XX como quem atravessa uma tempestade sem encontrar abrigo. E, no entanto, continua ali. Pequeno no mapa, sim. Na capacidade de resistir, decididamente não.

Origens monárquicas e o legado colonial

Muito antes de os europeus começarem a desenhar fronteiras com régua e lápis, o território já possuía uma organização política própria. O Reino do Burundi desenvolveu-se ao longo de séculos sob a autoridade do mwami, o monarca, numa sociedade em que hutus, tutsis e twa partilhavam a língua kirundi e uma cultura comum, embora existissem hierarquias e diferenças sociais importantes.

A região acabou por entrar na esfera colonial alemã no final do século XIX e, depois da Primeira Guerra Mundial, passou para a administração belga como parte do território de Ruanda-Urundi. A independência só chegaria em 1 de julho de 1962. O país recuperava então a soberania, mas herdava também estruturas políticas e sociais que o período colonial tinha deixado profundamente marcadas.

A instabilidade pós-independência e o ciclo de conflitos

A independência começou sob a forma de uma monarquia constitucional, mas o novo Estado teve pouco tempo para experimentar tranquilamente a democracia. Em outubro de 1961, o príncipe Louis Rwagasore, uma das principais figuras do movimento independentista, foi assassinado, poucos meses antes da independência. Em 1965, o primeiro-ministro Pierre Ngendandumwe também seria assassinado. No ano seguinte, o regime monárquico terminou e o Burundi tornou-se uma república.

Seguiram-se golpes militares e sucessivos períodos de governo autoritário. O problema não era simplesmente a existência de rivalidades entre hutus e tutsis; a história política do país envolvia também lutas pelo poder, exclusão institucional, desigualdades e manipulações políticas dessas identidades. A própria análise do Acordo de Arusha reconheceria posteriormente que as raízes do conflito eram muito mais profundas do que uma simples oposição entre dois grupos.

E então veio 1972. Uma rebelião no sul do país foi seguida por uma campanha de repressão em larga escala, particularmente contra hutus. As estimativas do número de mortos variam, mas as Nações Unidas e outros estudos históricos reconhecem aquele episódio como um dos momentos mais devastadores da história do Burundi. Mais tarde, novas ondas de violência ocorreriam em 1988 e 1993.

O país parecia preso num ciclo em que cada crise alimentava a seguinte e cada tentativa de reorganização política chegava acompanhada de uma memória cada vez mais pesada. Em 1993, o Burundi realizou eleições multipartidárias e Melchior Ndadaye tornou-se o primeiro presidente hutu democraticamente eleito. Poucos meses depois, foi assassinado durante uma tentativa de golpe. A consequência foi uma explosão de violência e o início de uma guerra civil que duraria mais de uma década.

A guerra civil e os Acordos de Arusha

A guerra civil, iniciada em 1993, transformou o pequeno Burundi num dos cenários mais dolorosos da região dos Grandes Lagos. Cerca de 300 mil pessoas morreram ao longo do conflito, segundo estimativas amplamente utilizadas pelas Nações Unidas e organismos internacionais, enquanto centenas de milhares foram deslocadas ou refugiaram-se nos países vizinhos.

O conflito envolveu o Exército e vários grupos rebeldes, entre eles o CNDD-FDD, e não terminou simplesmente porque alguém decidiu que já era suficiente. Foram necessários anos de negociações, acordos de cessar-fogo e uma intensa intervenção diplomática regional.

O Acordo de Paz e Reconciliação de Arusha, assinado em 28 de agosto de 2000, tornou-se o principal instrumento desse processo. Nelson Mandela teve um papel importante como facilitador das negociações, numa demonstração de que, naquela altura, o Burundi precisava de uma quantidade considerável de diplomacia para tentar fazer aquilo que as armas claramente não tinham conseguido.

A paz, contudo, não chegou de uma vez. Diferentes grupos armados foram aderindo ao processo em momentos distintos, e a implementação dos acordos exigiu desarmamento, reforma das forças de segurança, partilha de poder e novas instituições. Em 2004, as Nações Unidas criaram a Operação das Nações Unidas no Burundi, a ONUB, precisamente para apoiar a implementação do Acordo de Arusha e ajudar no processo de reconciliação nacional.

A missão terminou o seu mandato em dezembro de 2006, depois de o país ter avançado para uma nova fase política. Em 2005, Pierre Nkurunziza, antigo comandante do CNDD-FDD transformado em político, foi eleito presidente. Pela primeira vez em muitos anos, o Burundi começava a experimentar algo que parecia quase revolucionário depois de tanta violência: uma sucessão política através das instituições.

Reconstrução contemporânea e resiliência

Isso não significou que todos os problemas desaparecersem. O Burundi continuou a enfrentar pobreza, fragilidade económica, tensões políticas e episódios de violência, incluindo uma grave crise em 2015 relacionada com a tentativa de Nkurunziza de disputar um terceiro mandato.

O país continuou, porém, a existir e a reconstruir-se depois de décadas em que a própria ideia de estabilidade parecia demasiado ambiciosa. Hoje, a sua capital política é Gitega, enquanto Bujumbura permanece como o principal centro económico. O território continua pequeno e densamente povoado, com uma paisagem marcada por colinas, lagos e terras agrícolas. É um país onde a geografia parece ter decidido concentrar muita gente num espaço relativamente pequeno e depois acrescentar-lhe uma história política extraordinariamente pesada.

Talvez seja precisamente por isso que o Burundi mereça ser lembrado para além das tragédias que marcaram a sua História recente. O país passou por monarquia, colonização, independência, golpes, massacres, guerra civil, negociações de paz e intervenções internacionais. Nada disso foi pequeno para quem viveu esses acontecimentos.

Mas a capacidade de reconstruir instituições, negociar depois de anos de violência e manter uma identidade própria apesar de tantas rupturas também faz parte da história burundesa. No mapa, o Burundi continua a parecer quase uma nota de rodapé entre gigantes regionais. Na História, porém, ocupa um espaço muito maior. Porque há países que resistem por serem grandes e poderosos. O Burundi teve de aprender a resistir precisamente porque nunca teve esse luxo.

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