Camarões: Uma pequena África condensada num só país

Paisagem do Monte Camarões rodeado por floresta tropical e nuvens baixas.

Há países que parecem ter sido feitos à medida para provar que os mapas podem ser enganadores. Os Camarões não são particularmente pequenos em território, mas a sua verdadeira dimensão está na quantidade de África que conseguiram concentrar dentro das próprias fronteiras.

Florestas tropicais, savanas, montanhas, litoral atlântico e regiões sahelianas convivem num único país, juntamente com mais de 250 grupos étnicos, centenas de línguas locais e duas línguas oficiais herdadas de diferentes administrações coloniais: francês e inglês. Há ainda cristãos, muçulmanos e seguidores de tradições religiosas africanas, além de uma economia que mistura agricultura, petróleo, madeira, indústria e serviços. Se alguém tivesse tentado construir uma “África em miniatura”, provavelmente teria chegado a algo bastante parecido com os Camarões.

Diversidade geográfica e heranças pré-coloniais

A diversidade começa pela própria geografia. No sul encontram-se florestas tropicais húmidas, enquanto o centro e o oeste são marcados por planaltos e montanhas; mais para norte, a paisagem vai-se tornando progressivamente mais seca até entrar no ambiente do Sahel. O monte Camarões, um vulcão com mais de quatro mil metros de altitude junto ao golfo da Guiné, domina parte da paisagem ocidental.

Esta variedade criou condições para diferentes formas de vida, economias e sociedades se desenvolverem lado a lado. Muito antes da chegada europeia, já existiam no território numerosos povos e estruturas políticas, incluindo os reinos dos Bamoun e dos grupos das terras altas. No norte, a expansão dos Fulani, sobretudo a partir do século XVIII, acrescentou outra camada cultural e religiosa a um território que já não era propriamente curto de diversidade.

Da chegada dos portugueses ao domínio colonial duplo

Os europeus chegaram à costa no século XV, quando navegadores portugueses deram ao estuário do rio Wouri o nome de Rio dos Camarões, devido à abundância de crustáceos encontrada nas suas águas. O nome acabou por sobreviver à passagem dos séculos e tornou-se a designação do país.

A colonização propriamente dita chegou mais tarde: em 1884, a Alemanha estabeleceu o protetorado de Kamerun, iniciando uma administração colonial que procurou explorar recursos e consolidar o território. Depois da Primeira Guerra Mundial, a derrota alemã trouxe mais uma mudança de proprietário histórico. O território foi dividido entre França e Reino Unido sob mandato da Sociedade das Nações.

A França ficou com a maior parte, enquanto os britânicos administraram duas zonas junto à fronteira com a Nigéria. O país que já era diverso ganhou assim mais uma peculiaridade: passou a ter duas tradições coloniais, dois sistemas administrativos e duas línguas europeias com estatuto oficial.

Independência, reunificação e a era política contemporânea

A independência também não aconteceu de uma só vez. A parte administrada pela França tornou-se independente em 1 de janeiro de 1960, formando a República dos Camarões. No ano seguinte, a população do território britânico foi chamada a escolher o seu futuro: a parte norte decidiu integrar a Nigéria, enquanto a parte sul optou por unir-se aos Camarões. Em 1 de outubro de 1961 nasceu assim a Federação dos Camarões, reunindo territórios que tinham passado por experiências coloniais diferentes.

Parecia uma solução razoável para um problema complicado, mas a história política raramente aceita ficar muito tempo com soluções razoáveis. Em 1972, uma nova Constituição transformou a federação num Estado unitário, reduzindo a autonomia das regiões de língua inglesa. A decisão ajudaria a alimentar tensões que continuariam a aparecer décadas depois.

A primeira grande fase da independência foi dominada por Ahmadou Ahidjo, primeiro presidente do país reunificado. O seu governo consolidou o poder central e reprimiu uma insurreição liderada pela União dos Povos dos Camarões, movimento que já combatia o domínio colonial francês desde 1955. Ahidjo acabou por estabelecer um sistema de partido único e permaneceu no poder até 1982, quando renunciou e foi sucedido constitucionalmente pelo seu primeiro-ministro, Paul Biya.

O que poderia ter sido uma simples sucessão política acabou por produzir uma das mais longas permanências presidenciais da África contemporânea. Biya continua no poder décadas depois, atravessando mudanças políticas, crises económicas, reformas institucionais e várias eleições. Os Camarões descobriram, assim, que também é possível condensar bastante tempo político num só capítulo da História.

Desafios regionais, economia e o mosaico camaronês

A diversidade que parecia ser uma das grandes riquezas do país também revelou um dos seus maiores desafios. Nas regiões anglófonas do Noroeste e Sudoeste, que haviam sido administradas pelos britânicos, cresceram críticas relacionadas com a centralização do Estado e com a perceção de marginalização política e cultural. Em 2016, protestos de professores e advogados transformaram-se numa crise muito mais ampla e, em 2017, movimentos separatistas proclamaram a chamada República da Ambazónia.

Seguiu-se um conflito armado entre forças governamentais e grupos separatistas, acompanhado por deslocamentos populacionais e graves violações de direitos humanos atribuídas a diferentes intervenientes. Ao mesmo tempo, no extremo norte, o país enfrenta a ameaça do Boko Haram e de grupos relacionados com o Estado Islâmico na região do lago Chade. Assim, um país que já parecia ter bastante História decidiu acrescentar-lhe ainda mais uma camada de problemas.

Apesar das dificuldades, os Camarões continuam a possuir uma das sociedades mais diversificadas da África central. Douala é o principal centro económico e portuário, Yaoundé é a capital política, e regiões tão diferentes como os planaltos ocidentais, as florestas do sul e as savanas do norte contribuem para uma economia igualmente variada.

O país produz petróleo, madeira, cacau, café, algodão, bananas e outros produtos agrícolas, além de possuir recursos como gás natural, bauxite, ouro e potencial hidroelétrico. Essa diversidade económica, contudo, convive com desigualdades regionais, pobreza e problemas de governação. A riqueza existe, mas transformá-la em prosperidade generalizada continua a ser uma tarefa muito mais complicada do que simplesmente encontrá-la debaixo da terra ou numa plantação.

No fundo, os Camarões são um daqueles países em que quase tudo parece ter chegado em versão concentrada: diferentes paisagens, povos, línguas, religiões, histórias coloniais e tradições políticas. O resultado não é uma África perfeitamente representada em escala reduzida, porque nenhum país poderia carregar tamanha diversidade sem também carregar as suas próprias contradições.

Mas é precisamente isso que torna os Camarões tão interessantes. Do Atlântico às montanhas, das florestas tropicais ao Sahel, do francês ao inglês e das tradições locais às influências europeias, o país parece ter decidido provar que uma fronteira pode conter muitos mundos ao mesmo tempo. E, como acontece frequentemente quando se tenta juntar tantos mundos no mesmo lugar, viver juntos pode ser tão difícil quanto extraordinário.

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