Há revoluções que mudam um país e depois entram nos livros de História. A Revolução Cubana, aparentemente, não recebeu essa instrução. Em Cuba, o acontecimento que levou Fidel Castro ao poder em 1959 continua a ser a grande referência política, simbólica e institucional do país mais de seis décadas depois. Retratos de Fidel, Che Guevara e outros protagonistas continuam a fazer parte da paisagem; os discursos oficiais continuam a falar de soberania, imperialismo e resistência; e a palavra “Revolução” permanece praticamente com estatuto de membro permanente do Governo.
A ironia é que a ilha mudou imenso desde 1959 — demograficamente, economicamente, socialmente e internacionalmente — mas o sistema político continua a apresentar a Revolução como se ainda estivesse a decorrer. É talvez o caso mais bem-sucedido de uma revolução que conseguiu transformar-se simultaneamente em acontecimento histórico, identidade nacional e decoração permanente.
Da Independência à Ditadura de Batista
Antes de Fidel, Cuba já tinha uma história suficientemente turbulenta para dispensar mais uma grande experiência política. A ilha tornou-se independente de Espanha em 1898, depois de décadas de guerras independentistas e da intervenção dos Estados Unidos na fase final do conflito.
A independência veio acompanhada de uma relação particularmente estreita com Washington, incluindo a Emenda Platt, que concedia aos Estados Unidos direitos de intervenção em determinadas circunstâncias e condicionou fortemente a soberania cubana durante os primeiros anos da República. Havana desenvolveu uma economia fortemente ligada ao açúcar e ao mercado norte-americano, enquanto a política interna alternava entre períodos constitucionais, corrupção, autoritarismo e intervenções militares. Em 1952, Fulgencio Batista tomou o poder através de um golpe de Estado e estabeleceu uma ditadura. Foi contra esse regime que Fidel Castro, juntamente com outros revolucionários, iniciou a luta que acabaria por derrubá-lo.
O Triunfo da Revolução e as Crises da Guerra Fria
A Revolução triunfou em Janeiro de 1959, depois da fuga de Batista, e inicialmente reuniu pessoas com projectos políticos bastante diferentes. O novo Governo rapidamente começou a nacionalizar empresas, redistribuir terras e transformar profundamente a economia e a sociedade.
A relação com os Estados Unidos deteriorou-se rapidamente, sobretudo depois da nacionalização de propriedades norte-americanas. Washington respondeu com sanções e, em 1961, cortou relações diplomáticas; nesse mesmo ano, uma invasão de exilados cubanos apoiada pela CIA foi derrotada na Baía dos Porcos. Em 1962, a Crise dos Mísseis levou o mundo a um dos momentos mais perigosos da Guerra Fria, quando a instalação de mísseis nucleares soviéticos em Cuba provocou um confronto directo entre Washington e Moscovo. A ilha tinha conseguido uma proeza geopolítica extraordinária: tornar-se pequena demais para dominar o mundo e importante demais para ser ignorada por ele.
O Período Soviético e o Alinhamento Socialista
A aproximação à União Soviética tornou-se então fundamental para a sobrevivência económica do novo regime. Cuba recebeu petróleo, créditos e acesso preferencial para as suas exportações de açúcar, enquanto Havana se transformava num dos principais aliados de Moscovo no hemisfério ocidental.
Dentro da ilha, o Governo construiu um sistema socialista de partido único, nacionalizou grande parte da economia e ampliou significativamente o acesso à educação e à saúde. A alfabetização tornou-se uma das grandes bandeiras da Revolução, e a escolarização e os serviços de saúde alcançaram resultados importantes em vários indicadores sociais. Mas o mesmo Estado que expandiu esses serviços estabeleceu também um sistema político altamente repressivo, restringindo a liberdade de expressão, a imprensa independente e a actividade de oposição. A promessa revolucionária de construir uma sociedade mais igualitária veio acompanhada de uma pergunta que continuaria sem resposta satisfatória: igualdade para quem, e com quanta liberdade para discordar?
O “Período Especial” e a Queda da URSS
Durante décadas, Cuba conseguiu sobreviver graças à relação privileged com a União Soviética. O açúcar continuava a ser central, mas Moscovo comprava-o em condições favoráveis e fornecia recursos essenciais. Quando a União Soviética desapareceu, em 1991, a conta chegou sem aviso prévio.
Cuba entrou no chamado Período Especial, uma crise económica extraordinariamente severa marcada por escassez de combustível, alimentos e bens básicos, cortes de energia e uma queda abrupta da actividade económica. Bicicletas tornaram-se meios de transporte comuns porque simplesmente não havia combustível suficiente; apagões passaram a fazer parte da rotina; e o Governo foi obrigado a permitir algumas actividades económicas privadas e a abrir parcialmente o país ao turismo e ao investimento estrangeiro. A grande ironia era difícil de esconder: o sistema construído para ser independente do capitalismo descobriu que, sem o seu principal patrocinador socialista, precisava de improvisar algumas pequenas doses de mercado para continuar de pé.
Transição de Liderança, Embargo e Reformas Económicas
A Revolução, entretanto, não perdeu a capacidade de sobreviver politicamente. Fidel Castro deixou formalmente a presidência em 2008 e morreu em 2016, mas o sistema permaneceu. Raúl Castro conduziu uma abertura económica limitada, permitindo mais actividade privada e algumas reformas, enquanto Miguel Díaz-Canel assumiu a presidência em 2018 e tornou-se secretário-geral do Partido Comunista em 2021, consolidando a primeira sucessão da liderança máxima para alguém de uma geração posterior à Revolução.
Em 2015, Cuba e Estados Unidos restabeleceram relações diplomáticas durante as presidências de Barack Obama e Raúl Castro, mas a aproximação foi posteriormente revertida em grande parte. A relação entre os dois países continua marcada pelo embargo económico norte-americano e por sucessivas alterações da política de Washington. Para Havana, o embargo continua a ser uma explicação central para muitos dos problemas económicos; críticos do Governo cubano argumentam que as dificuldades também resultam de décadas de ineficiência, controlo estatal e decisões económicas internas. A realidade, como tantas vezes acontece, é menos conveniente do que um slogan.
Nos últimos anos, porém, tornou-se cada vez mais difícil esconder a dimensão da crise. Cuba enfrenta escassez de alimentos e medicamentos, inflação, perda de poder de compra e uma grave crise energética. Em Setembro de 2026, a rede eléctrica nacional voltou a colapsar, deixando milhões de pessoas sem electricidade; foi o sexto apagão nacional desde Janeiro. Ao mesmo tempo, o Governo tem introduzido reformas económicas destinadas a facilitar o investimento estrangeiro, reduzir burocracia e permitir maior participação privada em algumas áreas. Ou seja, depois de décadas a denunciar o capitalismo como o grande inimigo histórico, Cuba está agora a negociar cuidadosamente com algumas das ferramentas que o capitalismo deixou disponíveis. A História tem um sentido de humor peculiar.
A dimensão política continua igualmente controversa. Organizações internacionais de direitos humanos documentam detenções arbitrárias, repressão de críticos e limitations severas à liberdade de expressão e organização política; centenas de críticos e manifestantes continuam presos, incluindo participantes nos protestos de Julho de 2021. Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que o Governo cubano apresenta outra leitura, atribuindo grande parte das dificuldades económicas às sanções norte-americanas e defendendo o modelo socialista como garantia de soberania e protecção social. O embargo norte-americano tem efectivamente consequências económicas e continua a ser objecto de forte contestação internacional. Mas isso não elimina a existência de problemas internos documentados, nem transforma automaticamente uma explicação numa explicação exclusiva. Cuba tornou-se, assim, uma espécie de debate político permanente onde cada lado tem uma explicação pronta — e a população continua a ter de lidar com o apagão quando as luzes se apagam.
Talvez seja essa a maior ironia da história cubana. A Revolução prometeu criar um país novo, rompeu com os Estados Unidos, aproximou-se da União Soviética, sobreviveu ao desaparecimento desta, atravessou crises económicas, perdeu Fidel Castro, reformou parcialmente a economia e continua a apresentar-se como guardiã de um projecto iniciado há mais de seis décadas. Cuba mudou profundamente, mas a Revolução continua a ser apresentada como a sua grande explicação para o passado, o presente e, em certa medida, o futuro. O problema é que uma revolução concebida para transformar tudo acaba por enfrentar a pergunta mais incómoda de todas: se continua a ser preciso revolucionar alguma coisa depois de 67 anos, talvez a revolução ainda não tenha acabado — ou talvez seja precisamente isso que permite que ela nunca saia de moda.

