Bósnia e Herzegovina: Quando a História decidiu concentrar demasiados conflitos num só lugar

Vista da zona histórica de Baš?aršija em Sarajevo com lojas tradicionais de madeira e cúpulas otomanas ao amanhecer.

Há países onde a História passa de vez em quando para deixar uma lembrança. Na Bósnia e Herzegovina, parece ter instalado residência permanente. Poucos territórios europeus foram atravessados por tantas mudanças de impérios, religiões, fronteiras e identidades num espaço tão pequeno. Romanos, eslavos, otomanos, austro-húngaros, sérvios, croatas e jugoslavos deixaram marcas profundas, e Sarajevo acabou por ganhar uma reputação particularmente injusta: quando a História decide que precisa de começar uma grande confusão europeia, aparentemente gosta de marcar encontro ali.

Foi em Sarajevo que o arquiduque Francisco Fernando foi assassinada em 1914, acontecimento que desencadeou a Primeira Guerra Mundial. Mas seria um erro pensar que a Bósnia começou a ter História naquele dia. Nessa altura, já tinha séculos de experiências acumuladas — como quem chega a uma reunião com uma pasta cheia de documentos e descobre que ainda vão pedir mais.

Das origens medievais à herança otomana e austro-húngara

A região foi integrada no Império Romano e, ao longo da Idade Média, desenvolveu estruturas políticas próprias. No século XII surgiu o Banato da Bósnia e, posteriormente, o Reino da Bósnia, que atingiu o auge no século XIV. A conquista otomana, iniciada no século XV, mudou profundamente a sociedade. A Bósnia tornou-se uma das regiões mais importantes do Império Otomano nos Balcãs e desenvolveu uma população de tradições religiosas diversas, incluindo muçulmanos, cristãos ortodoxos e católicos.

Sarajevo cresceu como cidade otomana e tornou-se um importante centro comercial e cultural. Ainda hoje, mesquitas, igrejas, pontes, mercados e edifícios de diferentes épocas fazem da cidade uma espécie de livro de História em pedra — só que com demasiados capítulos para uma leitura rápida.

No final do século XIX, outra potência decidiu que talvez fosse a sua vez. Depois do Congresso de Berlim de 1878, a Áustria-Hungria recebeu autorização para ocupar e administrar a Bósnia e Herzegovina, embora formalmente o território continuasse sob soberania otomana até à anexação austro-húngara de 1908. A nova administração trouxe ferrovias, escolas, infra-estruturas e modernização urbana, mas também novas tensões políticas e nacionais.

Sarajevo tornou-se uma cidade onde diferentes projetos de identidade conviviam cada vez mais apertados. E então, em 28 de junho de 1914, o arquiduque Francisco Fernando e a sua mulher, Sofia, foram assassinados em Sarajevo por Gavrilo Princip, um jovem nacionalista sérvio-bósnio. O atentado provocou uma crise internacional que culminou na Primeira Guerra Mundial. A Bósnia não tinha pedido para ser o centro da tragédia europeia, mas a Europa decidiu colocá-la no palco mesmo assim.

O período jugoslavo: Dos Jogos Olímpicos à fragmentação

Depois da guerra, a região passou a integrar o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, posteriormente chamado Jugoslávia. A Segunda Guerra Mundial trouxe novamente violência e perseguições, mas depois de 1945 a Bósnia e Herzegovina tornou-se uma das seis repúblicas da República Socialista Federativa da Jugoslávia, liderada por Josip Broz Tito. Durante décadas, a população viveu dentro de um Estado que procurava equilibrar diferentes identidades nacionais e religiosas através da ideia de uma Jugoslávia comum.

Sarajevo desenvolveu-se e, em 1984, recebeu os Jogos Olímpicos de Inverno. Foi um momento de enorme projeção internacional: pistas de esqui, atletas, cerimónias e uma cidade que parecia simbolizar a possibilidade de diferentes povos viverem dentro do mesmo país. O problema é que a História ainda não tinha terminado de escrever o seu guião.

A Guerra da Bósnia, a tragédia de Srebrenica e os Acordos de Dayton

No início da década de 1990, a Jugoslávia começou a desintegrar-se. A Bósnia e Herzegovina declarou a independência em 1992, depois de um referendo boicotado em grande parte pela população sérvia da república, e seguiu-se uma guerra que durou até 1995. O conflito envolveu forças associadas aos principais grupos políticos e nacionais da época — bósnios muçulmanos, sérvios da Bósnia e croatas da Bósnia — e foi marcado por cercos, expulsões, campos de detenção, massacres e violência sexual. Mais de 100 mil pessoas morreram e mais de dois milhões foram obrigadas a abandonar as suas casas.

Entre os episódios mais terríveis esteve o genocídio de Srebrenica, em julho de 1995. A cidade tinha sido declarada “área segura” pelas Nações Unidas, mas foi tomada pelas forças sérvio-bósnias. Mais de 8.000 homens e rapazes bósnios muçulmanos foram mortos ou desapareceram, enquanto cerca de 25.000 mulheres, crianças e idosos foram expulsos da área. O Tribunal Penal Internacional para a ex-Jugoslávia e o Tribunal Internacional de Justiça reconheceram os acontecimentos de Srebrenica como genocídio. É uma parte da história que exige silêncio e memória, não humor.

A guerra terminou com os Acordos de Dayton, negociados em 1995, que estabeleceram a estrutura constitucional da Bósnia e Herzegovina contemporânea. O país permaneceu como um Estado soberano, mas foi organizado internamente em duas entidades — a Federação da Bósnia e Herzegovina e a Republika Srpska — com uma estrutura institucional extraordinariamente complexa. A Constituição reconhece os bósnios, croatas e sérvios como povos constituintes, juntamente com “Outros”. É uma solução que conseguiu uma coisa fundamental: parar a guerra. Mas também criou um sistema político tão cheio de equilíbrios, níveis administrativos e mecanismos de representação que explicar a arquitetura do Estado a alguém num café pode exigir um quadro branco, três cafés e uma tarde inteira.

O cenário contemporâneo e o futuro do país

Hoje, a Bósnia e Herzegovina continua a viver com essa herança. Sarajevo é uma capital multicultural onde mesquitas, igrejas católicas e ortodoxas e sinagogas testemunham séculos de convivência e conflito. Mostar tornou-se símbolo tanto da diversidade histórica como da reconstrução, com a famosa Ponte Velha reconstruída depois de ter sido destruída durante a guerra. E o país continua a enfrentar divisões políticas e identitárias que têm raízes profundas na própria estrutura criada em Dayton. A paz trouxe estabilidade, mas não apagou automaticamente as memórias, as diferenças ou as disputas políticas.

No fundo, a Bósnia e Herzegovina parece ter recebido uma quantidade de História claramente superior à capacidade recomendada para um único país. Impérios chegaram, partiram e foram substituídos; religiões e culturas encontraram-se, misturaram-se e entraram em conflito; uma bala disparada em Sarajevo ajudou a desencadear uma guerra mundial; outra guerra, décadas depois, destruiu cidades e famílias; e, finalmente, os diplomatas reuniram-se em Dayton para construir uma paz com tantas engrenagens que quase parece ter vindo com manual de instruções.

Mas talvez essa seja precisamente a lição da Bósnia: a História pode concentrar conflitos num território, mas também pode concentrar memória, resistência, reconstrução e convivência. E, depois de tudo o que aconteceu, continuar a viver juntos já é, por si só, uma forma bastante poderosa de escrever o próximo capítulo.

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