Comores: As ilhas onde os golpes de Estado pareciam seguir horário regular

Paisagem serena do vulcão Mount Karthala e da costa tropical de Moroni nas Ilhas Comores.

Há países que construíram a sua história através de guerras, revoluções ou grandes tratados internacionais. As Comores, durante várias décadas, tiveram uma estratégia aparentemente mais simples: mudar de governo à força.

O arquipélago, situado no Índico entre a costa oriental de África e Madagáscar, tornou-se independente da França em 1975 e, pouco depois, começou uma sequência política que faria qualquer calendário eleitoral parecer uma obra de ficção. Em cerca de duas décadas, ocorreram mais de 20 golpes de Estado ou tentativas de golpe. A piada do título, portanto, não é propriamente uma licença poética: houve períodos em que acompanhar a política com uma agenda era quase tão importante como acompanhar a meteorologia.

As Origens Históricas das Ilhas Comores e a Questão de Mayotte

As ilhas, contudo, tinham uma história muito mais antiga e interessante do que essa reputação posterior. Situadas numa zona de contacto entre África, Madagáscar, o mundo árabe e o Índico, as Comores receberam comerciantes e migrantes de diferentes origens ao longo dos séculos, e o Islão tornou-se profundamente enraizado na sociedade.

Portugueses passaram pelo arquipélago a partir do século XVI, mas foram os franceses que acabaram por estabelecer o domínio colonial, começando por Mayotte em 1841 e posteriormente integrando as restantes ilhas numa administração comum. Quando chegou a hora da independência, surgiu logo o primeiro grande problema: três ilhas queriam sair da França; Mayotte decidiu ficar. A questão permanece até hoje, com Mayotte integrada no território francês e as Comores a reivindicarem-na como parte do arquipélago.

A Independência de 1975 e as Primeiras Mudanças de Poder

A independência foi proclamada unilateralmente em 6 de Julho de 1975, com Ahmed Abdallah como primeiro presidente. O entusiasmo, porém, durou pouco mais de um mês. Em 3 de Agosto, Abdallah foi derrubado num golpe que contou com a participação do francês Bob Denard, um antigo militar que se tornaria uma das figuras mais extravagantes — e mais controversas — da história política africana do século XX.

O novo regime não durou muito. Em 1976, Ali Soilih tomou o poder, iniciando um projecto radical de transformação social e política que procurava romper com várias estruturas tradicionais. Só que, nas Comores, aparentemente até as revoluções tinham prazo de validade: em Maio de 1978, Denard regressou com mercenários, derrubou Soilih e recolocou Ahmed Abdallah no poder. Soilih acabaria assassinado poucos dias depois.

A Influência da Guarda Presidencial de Bob Denard

Foi então que as Comores viveram talvez o capítulo mais surreal da sua história moderna: durante mais de uma década, um mercenário estrangeiro tornou-se uma figura central do poder nacional. Bob Denard comandou a Guarda Presidencial de Abdallah, uma força armada que chegou a contar com cerca de 500 homens, e exerceu uma influência política extraordinária para alguém que não tinha sido escolhido pelos eleitores.

A Organização das Nações Unidas descreveu posteriormente a ligação entre o mercenarismo e a instabilidade política com bastante clareza, apontando a influência decisiva de Denard durante o período. As Comores chegaram, assim, a uma situação em que o homem encarregado de proteger o presidente tinha uma influência sufficiently grande para ajudar a decidir quem seria o presidente. É o tipo de arranjo que torna a expressão “segurança presidencial” particularmente criativa.

A Crise de 1989 e a Intervenção Francesa em 1995

Em 1989, Ahmed Abdallah foi assassinado em circunstâncias controversas, e Denard voltou a ocupar o centro da crise. Poucos dias depois, a Guarda Presidencial derrubou o sucessor constitucional e apoiou Said Mohamed Djohar. Sob pressão francesa, Denard acabou por abandonar o arquipélago.

Mas aparentemente não ficou convencido de que já tinha feito tudo o que podia pelas Comores. Em Setembro de 1995, regressou para tentar derrubar Djohar numa operação conduzida por apenas algumas dezenas de mercenários. Desta vez, Paris decidiu que a brincadeira tinha ido longe demais: tropas francesas intervieram e Denard rendeu-se. A operação terminou sem o confronto militar de grandes proporções que poderia ter acontecido, mas deixou uma imagem extraordinária de um país onde um grupo de mercenários podia tomar pontos estratégicos da capital e, poucos dias depois, ser retirado por forças francesas.

A Secessão de Anjouan e Mohéli e os Acordos de Fomboni

E ainda havia mais. Em 1997, as ilhas de Anjouan e Mohéli declararam a independência, mergulhando o arquipélago noutra crise. A tentativa de separação mostrou que o problema das Comores não era apenas quem ocupava o palácio presidencial em Moroni; era também a própria relação entre as ilhas.

A União Africana envolveu-se nas negociações e, depois de anos de instabilidade, os Acordos de Fomboni ajudaram a criar uma nova estrutura política. Em 2001, uma nova Constituição established a União das Comores, com maior autonomia para as ilhas. A experiência de sucessivos golpes tinha finalmente produzido uma conclusão bastante sensata: talvez fosse melhor repartir o poder antes que alguém voltasse a tentar conquistá-lo com uma metralhadora.

A Ascensão de Azali Assoumani e a Transição Institucional

A nova fase não eliminou todos os problemas, mas mudou o padrão. Em 1999, o coronel Azali Assoumani tinha chegado ao poder através de mais um golpe, desta vez sem derramamento de sangue. Mais tarde abandonaria o poder e concorreria em eleições, regressando à presidência por via eleitoral em 2016.

A tentativa de construir instituições mais estáveis coexistiu com novas tensões políticas e tentativas de golpe, incluindo uma frustrada em 2013. A história recente das Comores continua, portanto, a ser marcada por disputas políticas e institucionais, mas a época em que Bob Denard aparecia regularmente para reorganizar o governo pertence a outro capítulo — felizmente, um capítulo que não parece ter tido direito a segunda temporada.

Hoje, as Comores continuam a ser muito mais do que a caricatura de um arquipélago de golpes de Estado. Há vulcões, praias, florestas, culturas africanas e árabes profundamente misturadas, produção de baunilha, cravinho e ylang-ylang, além de uma localização estratégica no Índico.

A história política deixou cicatrizes profundas, mas também produziu uma experiência rara: um país que teve de aprender, muitas vezes da maneira mais difícil, que estabilidade não se constrói apenas trocando pessoas no poder. Nas Comores, durante algum tempo, parecia existir uma espécie de calendário nacional em que, entre uma tentativa de golpe e outra, alguém ainda encontrava tempo para governar. Felizmente, as ilhas são hoje lembradas por muito mais do que isso — embora seja difícil resistir à conclusão de que, durante algumas décadas, se alguém dissesse “temos uma crise política”, a resposta mais prudente seria simplesmente perguntar: “E desta vez, quem brought os mercenários?”

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