Coreia do Norte: O país onde a realidade insiste em competir com a propaganda

Vista monumental da praça do monumento Mansu Hill em Pyongyang na Coreia do Norte sob luz natural.

Há países que gostam de construir uma boa imagem no exterior. A Coreia do Norte, no entanto, decidiu levar a ideia um pouco mais longe: construiu praticamente uma realidade paralela.

Durante décadas, jornais, cartazes, discursos, monumentos e programas de televisão foram utilizados para apresentar uma versão cuidadosamente controlada do país, na qual os líderes são quase sempre extraordinários, os inimigos são quase sempre culpados e os problemas internos tendem a desaparecer convenientemente entre uma fotografia oficial e outra. O resultado é um dos sistemas políticos mais fechados do mundo, onde saber o que realmente acontece pode ser uma tarefa extraordinariamente difícil. E aqui começa a grande ironia norte-coreana: quanto mais a propaganda insiste que tudo está perfeitamente controlado, mais interessante se torna descobrir o que está por detrás do cenário.

A Divisão da Península e as Origens da Guerra da Coreia

A história que levou a esse cenário começou com a divisão da península coreana depois da Segunda Guerra Mundial. O Norte ficou sob influência soviética e o Sul sob influência norte-americana, até que, em 1948, surgiram dois Estados separados.

Em 1950, a Coreia do Norte invadiu o Sul, dando início à Guerra da Coreia. O conflito terminou em 1953 com um armistício, não com um tratado de paz definitivo, deixando a península tecnicamente num estado de guerra que continua a marcar a política regional. A guerra devastou cidades e infra-estruturas e consolidou uma lógica de permanente mobilização militar. Por conseguinte, para o regime de Pyongyang, a ameaça externa tornou-se também uma ferramenta política extremamente conveniente: quando um país vive permanentemente à espera do inimigo, questionar o governo pode facilmente ser apresentado como ajudar o inimigo.

A Ideologia Juche e o Impacto da Crise Económica dos Anos 1990

Foi neste ambiente que Kim Il-sung consolidou o poder e desenvolveu uma ideologia baseada no Juche, geralmente traduzida como princípio de autossuficiência. A ideia oficial defendia que o país deveria depender de si próprio na política, na economia e na defesa.

O problema é que a autossuficiência, na prática, revelou algumas dificuldades bastante concretas. A Coreia do Norte tem uma geografia pouco favorável à agricultura: grande parte do território é montanhosa e apenas uma fracção da terra é arável. Mesmo durante o período em que o regime proclamava independência económica, dependia de apoio e comércio externos. Assim, quando a União Soviética entrou em colapso, no início dos anos 1990, a estrutura económica norte-coreana sofreu um golpe particularmente duro. A crise culminou na grande fome da década de 1990, que provocou um número muito elevado de mortes, embora as estimativas variem devido à escassez de dados fiáveis.

O Culto de Personalidade e o Controlo Rigoroso da Informação

Enquanto a economia lutava para sobreviver, a máquina de propaganda continuava a funcionar com uma confiança invejável. Kim Il-sung tornou-se objecto de um culto de personalidade cuidadosamente construído, posteriormente ampliado em torno de Kim Jong-il e, depois, de Kim Jong-un.

Retratos oficiais, monumentos gigantescos, cerimónias e narrativas escolares ajudaram a transformar a família Kim no centro simbólico da nação. A própria história oficial foi moldada para apresentar os líderes como figuras quase inevitáveis do destino coreano. O problema para quem tenta contar a história de fora é evidente: numa sociedade onde os meios de comunicação independentes são proibidos e o acesso à informação estrangeira é fortemente restringido, a propaganda não é apenas publicidade política. De facto, é uma das principais fontes de informação disponíveis para a população. A Organização das Nações Unidas continua a denunciar restrições severas à liberdade de expressão, movimento e acesso a informação externa.

O Desenvolvimento Militar e a Questão do Programa Nuclear

O paradoxo torna-se ainda maior quando se observa a prioridade dada ao poder militar. A Coreia do Norte desenvolveu um dos maiores aparelhos militares do mundo em relação à sua dimensão económica e investiu durante décadas em mísseis balísticos e armas nucleares.

O regime justifica essa política como indispensável para garantir a sobrevivência nacional perante os Estados Unidos e a Coreia do Sul. As Nações Unidas, por outro lado, têm alertado para o peso que a militarização coloca sobre uma população que continua a enfrentar problemas de alimentação, saúde e acesso a serviços básicos. É uma contradição difícil de ignorar: um Estado que afirma precisar de armas cada vez mais sofisticadas para garantir a segurança do seu povo continua a enfrentar dificuldades para garantir a esse mesmo povo algumas das coisas mais elementares da vida.

A Liderança de Kim Jong-un e as Alianças Internacionais

Kim Jong-un, que assumiu a liderança após a morte do pai, Kim Jong-il, em 2011, manteve essa combinação de controlo interno, desenvolvimento militar e diplomacia cuidadosamente calculada. Houve momentos de extraordinária aproximação internacional, incluindo os encontros com Donald Trump em 2018 e 2019, que produziram imagens históricas mas não conduziram a um acordo duradouro sobre a questão nuclear.

Nos últimos anos, Pyongyang aprofundou também a cooperação estratégica com Moscovo. Em 2026, essa relação tornou-se ainda mais relevante, com a Rússia a reconhecer publicamente o apoio norte-coreano, incluindo o envio de tropas para a Rússia durante a guerra contra a Ucrânia. A diplomacia norte-coreana continua, assim, a demonstrar uma característica curiosa: quanto mais isolado parece o país, mais cuidadosamente escolhe os poucos parceiros que podem ser úteis.

A Realidade Económica e as Estimativas do Banco da Coreia

A economia oferece outra versão dessa mesma realidade contraditória. Como Pyongyang não publica estatísticas económicas completas e independentes, grande parte dos números disponíveis resulta de estimativas de instituições estrangeiras.

Segundo estimativas do Banco da Coreia da Coreia do Sul, a economia norte-coreana cresceu 3,5% em 2025, impulsionada sobretudo pelo aumento da cooperação económica com a Rússia e a China e por actividades ligadas à indústria e à defesa. Mas esse crescimento deve ser colocado em perspectiva: a mesma estimativa aponta para um rendimento nacional bruto equivalente a apenas uma pequena fracção do sul-coreano. A Coreia do Norte pode anunciar metas industriais superadas e grandes projectos de construção; o desafio está em perceber quanto dessa prosperidade chega efectivamente à população. Afinal, até a estatística tem dificuldades para entrar no país sem passar primeiro pela fronteira.

E talvez seja precisamente essa dificuldade de distinguir a realidade da representação que torna a Coreia do Norte tão singular. Não é simplesmente um país pobre, militarizado ou autoritário; é um Estado que construiu um sistema extraordinariamente sofisticado de controlo da informação, enquanto procura convencer os seus cidadãos de que a versão oficial dos acontecimentos é a única versão possível.

A propaganda apresenta força; os relatórios internacionais revelam privações. O regime fala em independência; a economia depende de relações externas. O discurso celebra o desenvolvimento; organismos internacionais continuam a denunciar fome, trabalho forçado, repressão e falta de liberdades fundamentais. A ironia final é quase inevitável: na Coreia do Norte, a propaganda não tenta apenas contar a realidade de outra maneira. Em muitos casos, tenta substituir a própria realidade. E talvez seja esse o maior feito do sistema: num país onde até a verdade precisa de autorização para circular, descobrir o que realmente acontece já é, por si só, uma pequena aventura.

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