Costa do Marfim: O país que descobriu que o cacau vale mais do que parece

Plantação de cacau com frutos maduros no campo rural da Costa do Marfim sob luz natural.

Há países que encontraram petróleo e decidiram construir arranha-céus. Outros descobriram diamantes e passaram décadas a tentar descobrir o que fazer com eles. A Costa do Marfim encontrou cacau — e percebeu que uma pequena semente castanha podia sustentar uma economia inteira. Hoje, o país é o maior produtor mundial de cacau e continua a ter uma das economias de crescimento mais rápido da África subsaariana. Mas existe uma pequena partida pregada pela História: produzir uma das matérias-primas mais desejadas do planeta não significa necessariamente ficar rico com ela.

O cacau transformou a Costa do Marfim, criou cidades, estradas, empregos e receitas de exportação. No entanto, também brought pobreza rural, dependência dos preços internacionais, desflorestação e uma pergunta bastante incómoda: afinal, quem fica com o verdadeiro valor daquele chocolate que chega à prateleira?

As Origens Indígenas e o Período Colonial Francês

Muito antes de o cacau se tornar a estrela da economia, a região era habitada por diversos povos e sociedades. Entre eles, destacavam-se os Akan, Baulé, Sénoufo e outros grupos que desenvolveram redes comerciais e estruturas políticas próprias.

A presença francesa consolidou-se no final do século XIX, e a Costa do Marfim passou a integrar o império colonial francês. A economia colonial foi organizada em torno da exportação de produtos agrícolas, sobretudo café, cacau, banana e madeira. Houve exploração económica, desigualdade e recurso a formas coercivas de trabalho, como aconteceu noutras partes do império colonial.

O curioso é que o homem que viria a liderar o país independente tinha uma ligação directa a essa economia: Félix Houphouët-Boigny era ele próprio produtor de cacau e tornou-se uma das principais figuras da oposição ao trabalho forçado e do movimento político africano na África Ocidental Francesa.

O Milagre Marfinense e a Liderança de Félix Houphouët-Boigny

Quando a independência chegou, em 1960, Houphouët-Boigny tornou-se presidente e permaneceu no poder até à sua morte, em 1993.

Durante as primeiras décadas, apostou fortemente na agricultura de exportação, atraiu investimento estrangeiro e promoveu a expansão das plantações de cacau e café. O resultado ficou conhecido como o “milagre marfinense”: durante anos, a economia cresceu rapidamente e a Costa do Marfim tornou-se uma das referências económicas da África Ocidental.

A abundância de terras agrícolas, as condições climáticas favoráveis e a chegada de trabalhadores de outros países da região ajudaram a alimentar essa expansão. O país chegou a tornar-se o maior exportador mundial de cacau por volta de 1980. Era uma estratégia simples na aparência: plantar, colher, exportar e crescer. E, durante algum tempo, funcionou extraordinariamente bem.

A Queda dos Preços Internacionais e a Pobreza Rural

O problema apareceu quando o mercado decidiu lembrar ao país quem mandava. A Costa do Marfim dependia fortemente das exportações agrícolas, sobretudo de cacau e café, e os preços internacionais começaram a cair no final dos anos 1970 e durante os anos 1980.

O “milagre” começou então a perder algumas letras pelo caminho. Por conseguinte, o Estado acumulou dívida, a economia entrou em dificuldades e a pobreza aumentou, sobretudo nas zonas rurais. O país descobriu uma verdade pouco simpática sobre as matérias-primas: quando se vende um produto agrícola básico, o produtor pode trabalhar arduamente durante meses sem ter qualquer controlo sobre o preço internacional.

A Costa do Marfim produzia cada vez mais cacau, mas isso não significava que os agricultores estivessem automaticamente a enriquecer. Em 2015, segundo o Banco Mundial, 54,9% dos produtores de cacau viviam abaixo da linha de pobreza.

O Conceito de Ivoirité e as Tensões Políticas

E o cacau acabou também por se misturar com as tensões políticas e sociais do país. A migração de trabalhadores provenientes de outros países da África Ocidental tinha sido importante para a expansão agrícola, mas as questões de terra, identidade e cidadania tornaram-se progressivamente mais delicadas.

Depois da morte de Houphouët-Boigny, em 1993, o conceito de Ivoirité — uma definição controversa de identidade marfinense — passou a ser utilizado politicamente e contribuiu para aprofundar divisões entre populações consideradas “autóctones” e comunidades de origem estrangeira.

As disputas políticas agravaram-se e desembocaram em golpes, rebeliões e numa guerra civil que dividiu o país. A agricultura, que tinha ajudado a construir o crescimento, encontrava-se agora no meio de uma crise que era simultaneamente económica, territorial e política.

A Cadeia de Valor Global e a Questão Ambiental

Entretanto, o mundo continuava a querer chocolate. E muito. A Costa do Marfim tornou-se responsável por uma parcela gigantesca da produção mundial — cerca de 40%, segundo dados do Banco Mundial — envolvendo aproximadamente um milhão de produtores e proporcionando rendimento, directa ou indirectamente, a milhões de pessoas.

O cacau tornou-se um dos principais geradores de divisas do país e uma peça central da economia nacional. Só que há uma ironia económica difícil de ignorar: a Costa do Marfim produz a matéria-prima, enquanto grande parte do processamento, transformação, comercialização e valor acrescentado acontece fora das explorações agrícolas.

A semente que vale pouco quando sai da plantação pode transformar-se num produto bastante mais caro depois de passar por fábricas, marcas, embalagens e supermercados. O chocolate pode ser doce; a cadeia de valor nem sempre é.

Há ainda outro problema escondido debaixo das folhas das árvores. A expansão das plantações de cacau contribuiu para a desflorestação, sobretudo através da transformação de áreas florestais em terras agrícolas. O Banco Mundial estimou que cerca de 60% das florestas do país tinham desaparecido entre 1990 e 2015, apontando o cacau como um dos factores importantes dessa perda.

Além disso, o sector enfrenta problemas sociais relacionados com pobreza rural, condições de trabalho e trabalho infantil. A Organização Internacional do Cacau reconhece que os produtores continuam a ser a parte mais vulnerável da cadeia e que a sustentabilidade do sector depende simultaneamente de factores económicos, ambientais e sociais. Ou seja, já não basta perguntar quanto cacau a Costa do Marfim consegue produzir. É preciso perguntar quanto consegue produzir sem destruir a floresta e sem deixar os agricultores na parte mais magra de uma cadeia que termina num produto de luxo.

A Industrialização e as Perspetivas Económicas Atuais

Hoje, a Costa do Marfim tenta precisamente fazer aquilo que durante décadas pareceu secundário: deixar de ser apenas grande produtora de matérias-primas e conquistar uma fatia maior do valor criado depois da colheita.

A economia tem apresentado crescimento robusto — 6,3% em 2025, segundo o Banco Mundial — enquanto o país procura diversificar-se e desenvolver mais actividades de transformação industrial. O objectivo é passar de uma economia que vende sobretudo aquilo que produz no campo para uma economia que também transforma, processa e acrescenta valor dentro das suas próprias fronteiras.

No fundo, a Costa do Marfim descobriu há muito tempo que o cacau vale bastante. A descoberta mais recente é talvez ainda mais importante: não basta produzir aquilo que o mundo quer — é preciso conseguir ficar com uma parte maior do valor daquilo que o mundo compra. E, neste caso, talvez a próxima revolução marfinense não aconteça numa plantação, mas numa fábrica de chocolate.

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