Coreia do Sul: Como um país devastado decidiu competir com o futuro… e ganhou

Panorama moderno da cidade de Seul na Coreia do Sul sob a luz suave da manhã.

Em 1953, quando terminou a Guerra da Coreia, a Coreia do Sul tinha pouco de potência económica e muito de país por reconstruir. Cidades destruídas, infra-estruturas arrasadas, pobreza generalizada e uma economia que ainda dependia fortemente de ajuda externa não pareciam exactamente os ingredientes de uma futura potência tecnológica.

Décadas depois, porém, o país teria empresas como Samsung, Hyundai, LG e SK, produziria automóveis, navios, telemóveis e semicondutores para o mundo inteiro e transformaria Seul numa das grandes metrópoles globais. O Banco Mundial descreve esta transformação como uma das mais extraordinárias experiências de desenvolvimento da história moderna: o rendimento nacional bruto por habitante passou de cerca de 67 dólares no início dos anos 1950 para 36.624 dólares em 2024. A Coreia do Sul não encontrou petróleo, ouro ou uma varinha mágica. Encontrou outra coisa: uma enorme vontade de deixar de ser pobre.

Os Planos de Desenvolvimento e a Estratégia de Exportação dos Anos 1960

O ponto de viragem começou a desenhar-se nos anos 1960. Depois do golpe militar de 1961, o governo de Park Chung-hee lançou uma estratégia económica baseada em planos plurianuais, industrialização e, sobretudo, exportações.

A lógica era quase brutalmente simples: se o mercado interno era pequeno e os recursos naturais escassos, era preciso fabricar coisas que o resto do mundo quisesse comprar. A partir de 1962, o país começou a executar sucessivos planos de desenvolvimento, investindo em estradas, ferrovias, energia, educação e indústria. O Banco Mundial calcula que a economia sul-coreana cresceu, em média, cerca de 10% ao ano entre 1962 e 1994, enquanto as exportações aumentavam aproximadamente 20% ao ano em termos reais. Era uma espécie de corrida económica em que a Coreia tinha decidido participar sem esperar que alguém lhe explicasse que talvez estivesse a começar várias voltas atrás.

O Surgimento dos Chaebol e a Consolidação dos Grandes Conglomerados

A industrialização também produziu os famosos chaebol, grandes conglomerados empresariais que se tornariam protagonistas da economia nacional. Samsung, Hyundai, LG e outros grupos cresceram num ambiente em que o Estado orientava crédito, protegia determinados sectores e incentivava empresas a conquistar mercados estrangeiros.

A Samsung começou como uma pequena empresa comercial; a Hyundai cresceu inicialmente com contratos e actividades ligadas à reconstrução e aos transportes. Depois vieram os automóveis, a construção naval, o aço, a electrónica e, mais tarde, os semicondutores. O modelo funcionou de forma impressionante, mas não foi uma história sem sombras: a concentração económica, a estreita relação entre empresas e Estado e problemas de transparência e endividamento também criaram vulnerabilidades que acabariam por aparecer com estrondo.

O Movimento Democrático de Junho de 1987 e a Transição Política

Porque o crescimento económico teve uma companhia política bastante menos confortável. A Coreia do Sul passou por décadas de autoritarismo, golpes militares e forte concentração de poder presidencial.

O desenvolvimento económico não aconteceu num ambiente democrático estável desde o início; pelo contrário, grande parte da industrialização ocorreu sob governos autoritários. Em 1987, porém, grandes mobilizações populares conhecidas como Movimento Democrático de Junho pressionaram o regime a aceitar reformas, incluindo a eleição directa do presidente. A nova Constituição foi aprovada nesse mesmo ano, reforçando direitos fundamentais e alterando profundamente o sistema político. A história sul-coreana, portanto, não é apenas a de uma economia que cresceu depressa. É também a de uma sociedade que, à medida que se tornou mais rica e instruída, exigiu maior participação política — porque aparentemente até o crescimento económico acaba por receber perguntas incómodas.

A Crise Financeira Asiática de 1997 e a Recuperação Económica

Quando parecia que nada poderia interromper a marcha, chegou 1997. A crise financeira asiática revelou que o milagre tinha algumas peças montadas com parafusos demasiado apertados.

Empresas excessivamente endividadas, fragilidades no sistema financeiro e uma forte dependência de financiamento externo deixaram o país perigosamente exposto. Em Dezembro de 1997, a Coreia do Sul recorreu ao Fundo Monetário Internacional, num programa de cerca de 21 mil milhões de dólares, integrado num pacote internacional muito maior. A recessão de 1998 foi severa, mas a recuperação também foi extraordinariamente rápida: o crescimento chegou a 10,75% em 1999. Foi uma daquelas situações em que a economia parece ter dito: “Sim, quase fomos ao fundo. Agora podemos voltar ao trabalho?”

Liderança Tecnológica e o Papel Central da Educação

E voltou mesmo. Nas décadas seguintes, a Coreia do Sul deixou de ser conhecida apenas pela indústria pesada e passou a disputar posições de liderança em sectores tecnológicos cada vez mais sofisticados.

Semicondutores, baterias, electrónica, automóveis, construção naval, telecomunicações e tecnologias digitais tornaram-se pilares da economia. A aposta em educação teve um papel central nesta transformação. O país expandiu fortemente o acesso à escolaridade e criou uma força de trabalho altamente qualificada, enquanto empresas e Estado investiam pesadamente em investigação e desenvolvimento.

O resultado é particularmente curioso quando olhamos para o ponto de partida: um país que nos anos 1950 era receptor de ajuda tornou-se, em 2010, membro do Comité de Ajuda ao Desenvolvimento da OCDE — passando, literalmente, de receber financiamento internacional a ajudar outros países.

Desafios Demográficos e Perspetivas do Banco Mundial e da OCDE

Mas competir com o futuro não significa ter chegado ao fim da corrida. A Coreia do Sul continua a enfrentar problemas importantes: envelhecimento demográfico, baixa natalidade, forte pressão sobre os jovens, desigualdades, elevado custo da habitação e uma economia muito dependente de sectores tecnológicos e das exportações.

A OCDE destaca ainda desafios relacionados com competências da população adulta, reformas das pensões e sustentabilidade das contas públicas. Ao mesmo tempo, os semicondutores continuam a ser fundamentais para o crescimento: a OCDE assinala que o forte aumento das exportações de chips tem impulsionado a actividade económica e prevê crescimento de 2,6% em 2026. Ou seja, a mesma economia que aprendeu a correr atrás do futuro agora precisa de descobrir como envelhecer sem tropeçar nele.

Talvez seja essa a verdadeira história da Coreia do Sul. Não foi um país que recebeu uma oportunidade extraordinária e simplesmente a aproveitou; foi um país devastado pela guerra que construiu, ao longo de décadas, uma combinação de educação, infra-estruturas, indústria, exportações, tecnologia e capacidade empresarial que alterou completamente o seu lugar no mundo.

Houve autoritarismo, desigualdade, crises financeiras, erros económicos e custos sociais — portanto, não há aqui um conto de fadas com banda sonora perfeita. Mas há uma transformação extraordinária: em poucas gerações, a Coreia do Sul passou de país destruído e dependente de ajuda para economia de alto rendimento e centro mundial de tecnologia e inovação. Talvez por isso o título faça sentido. A Coreia do Sul não esperou que o futuro chegasse para descobrir o que fazer com ele. Decidiu correr ao encontro dele — e, pelo caminho, começou a fabricar algumas das coisas que o próprio futuro queria comprar.

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