Se existe um país especializado em ensinar lições de humildade às grandes potências mundiais, esse país chama-se Afeganistão. Ao longo dos séculos, alguns dos maiores impérios da História olharam para aquele pedaço de terra montanhosa e pensaram, quase em uníssono: “Isto resolve-se num instante.” Pouco tempo depois, estavam normalmente ocupados a descobrir que o “instante” podia durar décadas… e acabar muito pior do que o previsto.
O preço de tentar governar o Afeganistão
Não é por acaso que o Afeganistão ganhou fama como o lugar onde os impérios vão testar a própria humildade. A expressão é, de facto, mais justa do que a célebre ideia de “cemitério dos impérios”. Afinal, vários impérios sobreviveram às suas aventuras afegãs. O problema foi o preço que pagaram para aprender que conquistar um território é uma coisa; conseguir governá-lo é outra completamente diferente.
À primeira vista, o país nem parece especialmente intimidante. Não possui uma longa faixa costeira, não controla grandes rotas marítimas e boa parte do território é dominada por montanhas áridas. Porém, essa geografia aparentemente pouco convidativa transformou-se, durante milénios, numa vantagem estratégica inesperada. Quem quisesse atravessar a Ásia Central acabava, mais cedo ou mais tarde, a cruzar aquelas montanhas. E quem decidisse ficar descobria rapidamente que as montanhas também sabiam defender-se.
De Alexandre, o Grande, às grandes invasões históricas
A região foi habitada desde tempos pré-históricos e integrou antigas rotas comerciais que ligavam o Oriente ao Ocidente. Passaram por ali persas, gregos, povos da Ásia Central e muitos outros. Por exemplo, Alexandre, o Grande, chegou cheio de entusiasmo conquistador e conseguiu vencer militarmente. O problema começou depois da vitória, quando percebeu que controlar a região era uma tarefa bastante menos gloriosa do que conquistá-la. A História começava, assim, a criar um padrão.
Séculos mais tarde, chegaram árabes, mongóis e timúridas. Cada novo conquistador acreditava ter encontrado a estratégia que escapara aos anteriores. A História, porém, parecia responder sempre com a mesma pergunta: “Tem a certeza?”
O “Grande Jogo” e o pesadelo britânico no século XIX
No século XIX, entrou em cena outro protagonista: o Império Britânico. Era a época do chamado “Grande Jogo”, a rivalidade estratégica entre Londres e São Petersburgo pelo controlo da Ásia Central. Para os britânicos, o Afeganistão deveria funcionar como um Estado-tampão entre a Índia britânica e o Império Russo. Parecia um plano perfeitamente lógico… no papel.
Na realidade, as Guerras Anglo-Afegãs transformaram-se numa sucessão de campanhas difíceis, revoltas constantes e decisões que os estrategas militares preferem hoje estudar como exemplos do que convém evitar. A retirada britânica de Cabul, em 1842, ficou célebre pela sua dimensão trágica: de uma coluna com milhares de militares e civis que abandonou a cidade, apenas um médico britânico chegou vivo ao destino. A História, por vezes, consegue condensar uma campanha inteira numa única imagem.
O atoleiro soviético no século XX
No século XX, foi a vez da União Soviética concluir que estabilizar o Afeganistão seria uma operação relativamente rápida. Em 1979, tropas soviéticas entraram no país para apoiar o governo afegão.
O conflito prolongou-se durante quase dez anos, consumiu enormes recursos, provocou centenas de milhares de mortes e contribuiu para desgastar ainda mais um sistema soviético que já dava sinais evidentes de fragilidade. Quando os últimos soldados regressaram a casa, Moscovo levava consigo uma amarga lição: ocupar um país é muito mais simples do que conquistar a vontade do seu povo.
Mal os soviéticos partiram, o Afeganistão mergulhou numa guerra civil. Foi desse caos que emergiu o movimento talibã, que assumiu o poder na maior parte do território em meados da década de 1990.
Os vinte anos norte-americanos e o regresso do Talibã
Depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos e uma coligação internacional invadiram o Afeganistão com o objetivo de derrubar o regime talibã e combater grupos terroristas. A operação militar inicial foi rápida. Construir um Estado estável revelou-se infinitamente mais complicado.
Durante vinte anos sucederam-se governos, missões internacionais, investimentos e operações militares. Em 2021, a retirada das forças estrangeiras culminou no regresso dos talibãs ao poder, encerrando um dos mais longos envolvimentos militares da história norte-americana.
A complexidade tribal e a resistência cultural
Perante tudo isto, seria tentador concluir que o Afeganistão é impossível de governar. Mas essa ideia seria injusta e simplista. O país possui uma diversidade étnica, linguística e tribal extraordinária, moldada por montanhas que durante séculos dificultaram a comunicação e favoreceram identidades locais muito fortes.
Acrescente-se a influência de potências estrangeiras, interesses geopolíticos permanentes e fronteiras desenhadas muitas vezes sem atender às realidades no terreno, e percebe-se que a equação nunca foi propriamente simples.
Apesar de décadas de guerras, invasões e instabilidade, o Afeganistão continua a produzir poesia, música, artesanato, gastronomia e uma cultura de hospitalidade profundamente enraizada. Há uma impressionante capacidade de resistência no povo afegão, que sobreviveu a impérios, conflitos e mudanças de regime sem perder a sua identidade.
A maior lição do Cáucaso e da Ásia Central
Talvez seja essa a maior ironia da sua História. Durante séculos, o mundo olhou para o Afeganistão como um território a conquistar. Raramente parou para o compreender. E, como acontece tantas vezes na História, a falta de compreensão acabou por custar muito mais do que qualquer vitória militar alguma vez poderia compensar.
No fim de contas, o Afeganistão não é o lugar onde os impérios vão morrer. É o lugar onde descobrem, quase sempre demasiado tarde, que a arrogância é um péssimo plano de campanha e que há montanhas capazes de ensinar lições que nenhum manual de estratégia alguma vez conseguiu explicar.
