Há países que construíram a sua identidade através de conquistas, impérios ou vitórias militares. A Arménia construiu uma parte extraordinária da sua através de uma actividade aparentemente muito menos gloriosa: continuar a existir. No Cáucaso, numa região onde grandes impérios passaram durante séculos como quem troca de proprietário de uma casa, os arménios aprenderam uma habilidade que viria a revelar-se extremamente útil: perder território sem perder completamente a identidade. E fizeram isso tantas vezes que sobreviver acabou por deixar de ser apenas uma necessidade histórica e transformar-se numa espécie de tradição nacional.
A história da Arménia e as origens da sua identidade cultural
A história arménia é muito mais antiga do que o Estado actual. Ao longo de milhares de anos, diferentes reinos arménios surgiram e desapareceram numa região disputada por impérios como os persas, romanos, bizantinos e outros poderes que atravessaram o Cáucaso. A identidade arménia, porém, conseguiu sobreviver às mudanças políticas. Um dos momentos decisivos aconteceu no início do século IV, quando a Arménia se tornou o primeiro Estado a adoptar o cristianismo como religião oficial. Mais tarde, no início do século V, Mesrop Mashtots criou o alfabeto arménio, um instrumento que seria fundamental para preservar a língua, a literatura e a identidade cultural.
Isto é importante porque a Arménia descobriu cedo uma coisa que muitos Estados aprenderiam demasiado tarde: quando o território muda de mãos, a cultura pode ser a última fronteira. Um reino pode cair. Uma capital pode ser conquistada. Um império pode desenhar uma nova fronteira no mapa. Mas uma língua escrita, uma igreja, uma literatura e uma memória colectiva são muito mais difíceis de anexar. Os arménios foram, durante séculos, obrigados a praticar precisamente essa modalidade de resistência.
O colapso do reino, a Primeira República e a tragédia do genocídio
A soberania arménia sofreu golpes sucessivos até desaparecer por completo no final da Idade Média. A independência seria recuperada apenas em 1918, depois da Primeira Guerra Mundial e do colapso do Império Russo. A Primeira República da Arménia nasceu a 28 de Maio daquele ano, num cenário que dificilmente poderia ser considerado confortável: guerra, refugiados, fome, epidemias e enormes dificuldades económicas. Ainda assim, o novo Estado conseguiu existir durante pouco mais de dois anos. Em 1920, sob pressão militar e política, a república entrou em colapso e a Arménia foi sovietizada.
Mas entre essas duas datas aconteceu uma das páginas mais traumáticas da história arménia. Durante a Primeira Guerra Mundial, os arménios do Império Otomano foram vítimas de deportações, massacres e outras formas de violência em massa. A República da Arménia e a sua diplomacia recordam aproximadamente 1,5 milhões de vítimas do genocídio arménio entre 1915 e 1923. A dimensão dessa tragédia marcou profundamente a identidade nacional e originou uma enorme diáspora arménia espalhada por diferentes países.
E aqui a palavra “sobreviver” deixa de ser uma metáfora literária. Sobreviver significou reconstruir comunidades depois de uma catástrofe demográfica, preservar uma língua e uma religião quando milhões de pessoas tinham sido expulsas ou mortas e manter uma identidade nacional mesmo sem possuir um Estado independente. A diáspora tornou-se, por isso, uma parte essencial da história arménia. A Arménia não existia apenas dentro das suas fronteiras; existia também nas comunidades que os sobreviventes reconstruíram longe delas.
A integração na União Soviética e o renascimento na década de 1980
A era soviética trouxe outra transformação. Em 1920, a Arménia tornou-se uma república soviética e, a partir de 1936, uma das repúblicas constituintes da União Soviética. O regime soviético significou perda de soberania e repressão política, mas também industrialização, expansão da educação, desenvolvimento científico e crescimento cultural. A Arménia deixou de ser um Estado independente, mas continuou a desenvolver instituições e uma identidade cultural própria. Até dentro da gigantesca máquina soviética, os arménios encontraram espaço para continuar a ser arménios.
Na década de 1980, porém, a História voltou a acelerar. Em 1988, um movimento político ganhou força na Arménia em torno da questão de Nagorno-Karabakh, região de maioria arménia então integrada na República Socialista Soviética do Azerbaijão. Nesse mesmo ano, um devastador terramoto atingiu a Arménia, causando milhares de mortos e deixando enormes necessidades de reconstrução. Para uma sociedade já confrontada com tensões políticas e económicas, era quase como se a História tivesse decidido que uma dificuldade de cada vez seria demasiado simples.
A independência restaurada e a resiliência num contexto regional complexo
A independência voltou finalmente a bater à porta. A 23 de Agosto de 1990, o parlamento arménio adoptou uma declaração de independência. Em 21 de Setembro de 1991 realizou-se o referendo sobre a independência e, dois dias depois, o Conselho Supremo declarou a República da Arménia independente. Depois de décadas dentro da União Soviética e de séculos de soberania interrompida, a Arménia recuperava novamente um Estado independente.
Só que a independência não veio acompanhada de um manual de instruções. O novo país enfrentou dificuldades económicas severas, o conflito em torno de Nagorno-Karabakh e bloqueios nas suas fronteiras. A situação tornou-se particularmente difícil nos primeiros anos da independência. A Arménia tinha recuperado a soberania, mas precisava agora de descobrir como sobreviver como Estado num ambiente regional extremamente complicado.
Ainda assim, a história arménia oferece uma conclusão que vai muito além das fronteiras do país. Impérios desapareceram. Reis foram esquecidos. Fronteiras mudaram. Estados foram ocupados, divididos ou absorvidos. A União Soviética, que durante décadas pareceu uma estrutura praticamente eterna, também desapareceu. A Arménia continuou.
Talvez por isso a sua maior vitória histórica não seja uma batalha específica, uma dinastia ou sequer a recuperação da independência em 1991. É algo muito mais básico e, ao mesmo tempo, extraordinariamente difícil: a capacidade de continuar a ser quem é depois de a História ter tentado, repetidamente, obrigá-la a ser outra coisa.
No Cáucaso, onde os mapas raramente tiveram grande respeito pela estabilidade, a Arménia aprendeu uma lição que poucos países conhecem tão bem: fronteiras podem desaparecer, impérios podem mudar e Estados podem cair. Mas uma identidade que se recusa a desaparecer é uma espécie de território que ninguém consegue ocupar. E, depois de tantos séculos, talvez seja essa a mais antiga tradição arménia de todas: sobreviver — e ainda encontrar forças para começar outra vez.
