Um alentejano entra na esquadra da policia em plena cidade de Évora e dirige-se ao Sub-Chefe: – Vim entregar-me. Cometi um crime e desde então não consigo viver em paz. – Meu senhor, as leis aqui são muito severas e são cumpridas à risca, se o senhor é mesmo culpado não haverá apelação nem dor de consciência que o livre da cadeia. – Atropelei um espanhol ali na estrada de Estremoz. – Ora meu amigo, como é que o senhor se pode culpar se estes espanhóis atravessam as ruas e as estradas a todo o momento? – Mas ele estava na berma. – Se estava na berma é porque queria atravessar, se não fosse o senhor seria outro qualquer. – Mas não tive nem a hombridade de avisar a família daquele homem, sou um bandido! – Meu amigo, se o senhor tivesse avisado haveria manifestação, repúdio popular, passeataa, repressão, pancadaria e morreria muito mais gente, acho o senhor um pacifista, merece uma estátua. – Eu enterrei o pobre homem ali mesmo, na beira da estrada. – O senhor é um grande humanista, enterrar um espanhol, é um benfeitor, outro qualquer o abandonaria ali mesmo para ser comido por abutres e outros animais, provavelmente até hienas. – Mas enquanto eu o enterrava, ele gritava : Estoy vivo, estoy vivo!! – Tudo mentira, esses espanhóis são muito mentirosos!
Alentejano com remorsos
