Crónica de Ivan Valério: O doutor sem doutoramento

Jovem a escrever

Doutor Manuel Maria de Almeida e Castro Sá de Carvalho, 26 anos, vegetariano, licenciado em Filosofia, residente em várias localidades do Alentejo nas quais tenho moradias de cinco, seis ou mais assoalhadas, com garagem com portão automático e uma horta 100% biológica nas traseiras. Nasci e cresci numa família de notáveis doutores, todos eles famosíssimos na região. Olhe ali na parede os diplomas do meu trisavô, bisavô, avô e pai! Quando era criança o meu pai punha-me muitas vezes a ouvir aquela música do José Cid, a “Nasci para a Música” em que o pai dele lhe dizia que quando fosse maior tinha que ser engenheiro ou doutor. Ele optou por ser cantor e o resultado está à vista! Com isto tudo a mensagem do meu pai era clara: – filho estuda para doutor ou ficas como o José Cid! Resolvi formar-me em Filosofia no intuito de pensar as grandes questões da humanidade e sobretudo para salvar o Alentejo do marasmo em que vive há séculos. Já alguém questionou o porquê de os homens do mar serem conhecidos por marujos e os do ar não serem araújos? Eu questiono-o muitas vezes! Sou muito popular e às vezes quando vou na rua, mesmo nas cidades maiores como Beja ou Évora, as pessoas gritam-me “Doutor Castro Sá de Carvalho, bom dia!”. É uma sensação única! Penso que ser doutor deve ser motivo de orgulho para qualquer um! Eu não o escondo! Tenho indicação do título de doutor nos meus cartões multibando e de crédito e também nas etiquetas das campainhas e caixas de correio. E sou a favor da introdução do mesmo no cartão de cidadão, para que, por exemplo, quando vou às consultas médicas da rinite alérgica o médico também me possa tratar por doutor. E porque não a introdução do título também na carta de condução? Nem consigo imaginar o gosto que seria um polícia tratar-me por doutor numa operação stop. Tenho grandes projetos filosóficos para o país e um deles seria tornar Portugal reconhecido internacionalmente como um país de doutores. Sonhos, sonhos de um filósofo incompreendido!

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