Crónica de Ivan Valério: O primeiro cowboy alentejano

Cowboy

Daniel Semedo, mais conhecido por Luqui-Luqui da Póvoa de São Miguel, 47 anos, pescador amador à linha de fundo com larvas de mosca e apaixonado por motas antigas a dois tempos, sobretudo porque gosto daquele barulho e da fumaceira. Olhe, a minha paixão pelo mundo da coboiada começou num dia que vi um anúncio na televisão com um cowboy americano fumando tabaco Marlboro. Mas eu já em criança adorava aquela música do “ó Susana não chores por mim que ao passar a caravana os cowboys gritam assim: yahoo!”. Mas pronto, o que fez explodir em mim definitivamente a vontade de ser um cowboy foi de facto o anúncio e nesse mesmo dia em que o vi fui ao café comprar um maço de tabaco da Marlboro, peguei numa mula velha que o meu avô tinha no estábulo e saí aldeia fora a galope gritando “yahoooo” e só parei já à entrada de Moura, na ponte do Ardila. E só parei porque a ponte é estreita e tem lá um sinal em que temos que ceder passagem a quem vem no outro sentido. Fui fazendo mealheiro para comprar um cavalo adequado à minha atividade e hoje posso gabar-me de ter um cavalo melhor que os de muitos toureiros famosos. O meu Red Bull é de facto um cavalo com atributos de outro nível. Ainda no outro dia ia numa coboiada ali para os lados de Reguengos de Monsaraz e digo eu pró cavalo “Red Bull dá-te asas!” e o bicho mal ouve aquilo empina as orelhas, arranca fugindo a galope a tal ponto que ainda passei uma carrinha BMW 320 diesel ali na reta depois de Mourão mesmo antes de voltar para Monsaraz. Tive que lhe ir puxando as rédeas e quando cheguei a Reguengos era um cheiro a ferraduras queimadas que nem se podia estar! Só para você ver, ainda ia a uns cinco ou seis quilómetros da entrada da cidade e já havia gente na rotunda junto ao Continente dizendo “vem aí um Luqui-Luqui da Póvoa!”. Isto das cavalgadas ouve-se ao longe, faz lembrar quando havia comboio na região e se ouvia a léguas de distância. Como atividade principal destaco os trabalhos que faço em grandes propriedades agrícolas da região onde vigio as terras contra os amigos do alheio e ainda, através do lançamento da corda em andamento, ajudo a capturar gado selvagem. Sonhos? Ter uma enorme herdade aqui na região só para mim, com solo desértico e toda plantada de cactos, onde pudesse andar aos tiros e gritar “yahoo!” de manhã à noite sem ninguém chamar as autoridades. Um verdadeiro Faroeste no coração do Alentejo. Talvez quando as culturas super-intensivas destruírem os solos as condições se propiciem.

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