Virgílio Ferreira escreveu sobre esta feira

Virgilo Ferreira

A Feira de S. João chegou a ser uma das mais importantes feiras do reino, mas tal como a própria cidade que também foi perdendo algum do seu protagonismo ao longo dos séculos, também a Feira de S. João em Évora deixou de ter uma importância tão grande, fixando-se em objectivos essencialmente locais. Mesmo assim, Virgílio Ferreira no seu livro Aparição, fala sobre o tempo que viveu em Évora, leccionando nesta cidade e onde conheceu pessoas com quem discutiu e aprofundou as suas teorias relacionadas com a existência e também fala sobre a Feira de S. João, dizendo “A feira abriu com grande excitação. Todo o Rossio se iluminou de festa com fieiras de barracas, carrocéis, circos, stands de carros e máquinas agrícolas, botequins, tendas de doçaria, de fotocómico, tômbolas, jogos de argolinha, aparelhos de buena-dicha com variantes de passarinhos que tiram o papel da sorte, tiro ao alvo, aparelhos para demonstração de forças, solitárias vendedores de água com uma bilha e um copo ao lado, vendedores de mantas, de escadas, de cestos – sob um céu duro de alto-falantes e poeira e vibrações luminosas. Noite de S. João, noite cálida de bruxas e de sonhos. Para lá da mesa em que escrevo, para lá da janela aberta, clarões de fogueiras abrem-se de descantes que irradiam pelos céus. Há danças, entre as estrelas, de gente que se dá as mãos… A montanha arfa pesadamente dos grandes calores do dia. Eu ouço e comovo-me. De vez em quando o homem lembra-se de clamar a sua presença contra a noite, contra as sombras. As fogueiras são so fachos dessa vitória efémera. Mas é belo que se discuta até ao fim o derradeiro triunfo do silêncio. Eis Évora discutindo-o também aos meus olhos erradios e doridos”.

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