Catar: Como transformar gás natural em influência mundial

Vista dos arranha-céus modernos da orla marítima de Doha no Catar.

Há países que encontraram petróleo e ficaram ricos. Por outro lado, o Catar encontrou gás natural e decidiu que isso era apenas o começo. Encravado numa pequena península no Golfo Pérsico, o país tem uma área modesta e pouca água doce. Além disso, o seu território não parecia desenhado para se tornar uma potência económica.

Contudo, a geologia resolveu compensar a falta de espaço. Ao largo da costa encontra-se o North Field, parte de uma gigantesca reserva de gás partilhada com o Irão. Descoberto em 1971, o campo é o maior campo de gás natural não associado do mundo. Portanto, o Catar percebeu que havia ali uma oportunidade única. O objetivo era transformar esse recurso subterrâneo em infraestrutura e influência internacional.

Da pesca de pérolas à independência em 1971

Durante boa parte da sua história, o Catar esteve longe de ser uma potência financeira. Anteriormente, a economia dependia sobretudo da pesca, da extração de pérolas e do comércio marítimo. O país esteve sob influência britânica durante décadas. Em seguida, tornou-se independente em 1971, precisamente no mesmo ano da descoberta do North Field.

Trata-se de uma coincidência histórica conveniente. Afinal, o país acabava de ganhar soberania e descobria uma enorme riqueza debaixo do mar. Por isso, o desafio era transformar essa reserva em riqueza real. Essa tarefa exigia tecnologia, capital e uma estratégia sofisticada para além da simples extração.

A revolução do gás natural liquefeito (LNG)

A grande transformação veio com o gás natural liquefeito (LNG). Ao ser arrefecido a temperaturas baixas, o gás transforma-se num líquido fácil de transportar por navio. Assim, esta tecnologia permitiu ao Catar vender energia a países distantes. A aposta funcionou extraordinariamente bem desde o início.

Consequentemente, o país construiu uma enorme indústria de liquefação em Ras Laffan. Estabeleceu também contratos de longo prazo com compradores internacionais. Com o tempo, a receita energética financiou estradas, aeroportos, universidades e hospitais. Doha transformou-se em poucas décadas numa metrópole moderna e futurista.

Soft power, diplomacia e grandes eventos globais

A riqueza também alterou a posição internacional do país. Por exemplo, o Catar passou a investir no exterior através da Qatar Investment Authority. Além disso, Doha buscou construir influência através da diplomacia e da mediação de conflitos. Da mesma forma, investiu no desporto e nos meios de comunicação.

A criação da Al Jazeera, em 1996, deu ao pequeno Estado uma projeção mediática global. Mais tarde, vieram os grandes eventos desportivos, como o Mundial de Futebol de 2022. Assim, o Catar descobriu uma fórmula eficiente para expandir a sua presença no mapa político. O objetivo era ser pequeno em território, mas grande na agenda mundial.

Reformas internas e a crise do bloqueio regional

Essa estratégia também trouxe controvérsias e críticas internacionais. A preparação para o Mundial colocou em foco as condições dos trabalhadores migrantes. Por conseguinte, o governo catariano introduziu reformas laborais importantes. Essas mudanças incluíram o fim do sistema de kafala e a criação de um salário mínimo.

No entanto, organizações internacionais continuam a acompanhar a aplicação dessas leis. A visibilidade global trouxe também uma maior fiscalização externa. Paralelamente, o país enfrentou um bloqueio diplomático e económico entre 2017 e 2021. No entanto, o Catar reorganizou as suas rotas comerciais e fortaleceu parcerias. O gás tornou-se, portanto, uma ferramenta essencial de segurança económica.

O futuro da expansão e a segurança energética

Atualmente, o plano de expansão continua a avançar com rapidez. A QatarEnergy está a expandir a produção do North Field em várias fases estratégicas. A capacidade de produção de LNG está projetada para crescer de forma expressiva. Espera-se atingir 142 milhões de toneladas por ano com o projeto North Field West.

Desta forma, o país aumentará a sua capacidade em cerca de 85%. Enquanto muitos países discutem a transição energética, o Catar investe pesado no gás natural. Em suma, o país demonstrou como converter recursos em diplomacia e presença global. O segredo esteve em liquefazer, transportar e transformar a energia numa rede de influência mundial.

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