Crónicas de Ivan Valério: O homem sem tatuagens

DJ

Carlos António Feijão (DJ Bean), nasci em 1977 perto de Santo Aleixo da Restauração, concelho de Moura, num momento em que a minha mãe lavava roupa na ribeira com sabão azul e branco. Graças ao facto de ter nascido na ribeira aprendi a nadar muito cedo e com 18 anos passei o Guadiana a nado e instalei-me em Évora, para trabalhar num call center da MEO onde vendia fibra ótica telefonicamente. Os senhores podem achar estranho fibra ótica no Alentejo no ano de 1995, mas escavações arqueológicas na região encontraram construções romanas onde não existiam quaisquer fios de comunicações, o que comprova que já há dois mil anos, no tempo dos romanos existia rede sem fios no Alentejo, quanto mais fibra ótica em 1995! Mas o meu sonho era ser disc jockey (DJ ou deejay) e aos 20 anos gastava o ordenado todo em discos de vinil e SG Filtro. A partir do momento em que assumi publicamente que queria ser DJ choveram as críticas e as dificuldades: os meus pais pensaram logo que eu andava na droga e os meus amigos, esses, quase todos pastores de profissão, nunca me perdoaram o facto de os ter traído trocando o campo pela vida moderna da cidade. Mas as maiores dificuldades vieram do mercado: todos me diziam que por não ter tatuagens não podia ser DJ nunca na vida. É injusto que um tipo só por ter no braço “Amor de mãe – Angola 1969” escrito com tinta da China possa passar música nas melhores discotecas da região e eu só porque não tinha uma tatuagem via-me privado de tal. Mas tudo mudou no dia em que meti um brinco na orelha! Abriram-se portas, comecei por passar música em três discotecas da região e hoje faço-o em mais de vinte discotecas de toda a Península Ibérica. Sou hoje um homem realizado, mesmo sem tatuagens e que come pão integral há quase dois anos, derivado a problemas intestinais que me impediam de estar cinco, seis ou mesmo sete horas passando música de seguida sempre a bombar. Sou sócio fundador e presidente da Associação Portuguesa de Deejays Sem Tatuagens (APDST) e todos os anos lançamos campanhas contra a discriminação e ajudamos jovens a traçar o seu caminho longe das injustiças de uma sociedade que julga sem dó. Gostava de ouvir os partidos políticos falar sobre as questões de uma minoria que tem sido perseguida por todo o mundo. Todos se preocupam com a reintrodução do lince ibérico e para nós ninguém olha! Mas não desisto, tenho orgulho no meu trabalho e tenho o grande sonho de gravar um CD com remix de modas alentejanas. Já estou a imaginar “eu ouvi um passarinho bum bum bum bum bum”.

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