Carlos Pipa, 32 anos, nasci numa ambulância marca Mercedes entre Serpa e Beja e gosto de jogar jogos no telemóvel e comer pistácios com casca da marca do Lidl. Foi muito cedo que o mundo da mediação de conflitos entrou na minha vida. Um dia na escola tive que convencer um grupo de dez rufias a não me partir a boca, dei uma pastilha gorila de banana com cromo a cada um e resultou. A partir daí fiquei com o bichinho da mediação e não mais parei. Inicialmente comecei a trabalhar como mediador de bêbedos nos Verões do Algarve. Foi lá, na louca noite algarvia, mediando conflitos entre ingleses bêbedos que queriam comer portuguesas e portuguesas que não queriam ser comidas por ingleses bêbedos que cresci como profissional. O mais difícil para mim é segurar-lhes o pénis enquanto urinam na via pública ou na pior das hipóteses segurar-lhes a cabeça para vomitar. Mais tarde consegui uma colocação mais perto de casa através do concurso nacional de colocação de mediadores de bêbedos. Colocado na região vinícola do Alentejo interior tenho atuado e desenvolvido trabalho em muitas tabernas, cafés e bares da região onde o grau de conflito é muito elevado. Em dois anos, só na região DOC de Moura já consegui pacificar sete estabelecimentos. Antes de mim esses sete estabelecimentos eram problemáticos e em alguns casos desde o 25 de Abril que nem a Polícia armada com metralhadoras conseguia lá entrar. Lembro-me de num desses estabelecimentos, muito frequentado por jovens, na última tentativa que a Polícia fez para lá entrar com um mandato de detenção de um individuo que devia o Imposto IUC – Imposto Único de Circulação – do carro, o verniz estalou e as cenas de violência alcançaram os níveis de uma claque de futebol do Sporting no dia da invasão à Academia de Alcochete. Há relatos de nesse dia até as borras do café terem atirado para os olhos dos polícias enquanto, em coro, lhes cantavam músicas do Tony Carreira. E qual é o polícia que com um capacete, um escudo e um bastão consegue defender-se de uma música do Tony Carreira? E ainda lhe disseram, “ou vocês vão embora ou cantamos uma música funk da Anitta enquanto abanamos o bum bum à vossa frente!”. E nesse momento o comissário que comandava as operações no terreno viu-se sem capacidade de lhes fazer frente e mandou bater em retirada. Não podia correr o risco de ter homens intelectualmente feridos em serviço. Se tenho sonhos? Sim, gostava de um dia gerir conflitos numa pastelaria onde senhoras que bebem chá verde com pastéis de nata às vezes andam pelos cabelos e cravam as unhas de gel nos braços umas das outras. É para evitar todo este tipo de atritos na sociedade que pessoas como eu existem. Em prol de um mundo melhor, mais pacífico e possivelmente onde conseguiremos resolver a eterna rivalidade entre benfiquistas e sportinguistas.
Crónicas de Ivan Valério: O mediador de bêbedos
